Estou lendo um livro chamado "Deus um delírio", de Richard Dawkins. Ele é um cientista (biólogo) ateu, que escreveu vários livros divulgando o ateísmo e criticando os males da religião no mundo.
Nesse livro Dawkins diz que Deus é um delírio sociológico, criado pela mente das pessoas e passado de geração em geração.

Diz que a causa de a religião ser tão propagada e continuar fortíssima, mesmo nas sociedades pós-modernas, se deve à educação das crianças nas religiões. Ele diz que um ser humano adulto, criado em uma certa religião, dificilmente vai mudar seus conceitos. Sustenta ele ainda, que é um abuso infantil educar uma criança em uma religião, uma vez que se está tirando o direito de escolha da pessoa. Ora, se um adulto decide mudar de opinião religiosa, ou mesmo dizer que não acredita mais em nenhuma divindade, com certeza será tido como apóstata pela família e seu círculo de amigos. Essa pessoa torna-se um renegado. Nesse sentido, o direito de escolha é tolhido pelos pais e também pelo grupo.
Pensando sobre o livro, olhei para mim e cheguei a conclusão que, se eu chegar para os meus pais aos 30 anos da minha existência, e declarar-me ateu, será para eles uma surpresa terrível, um desgosto e talvez até considerado uma traição.
Bem, eu fico pensando nos meus filhos (futuros). Será que eu darei a eles o direito de escolha? Penso hoje que também os criarei em um ambiente religioso, ensinando-lhes a fé em Deus e em Jesus, farei isso porque acredito nisso e penso que o que é bom para mim será bom para eles. Portanto, quando criança eles não terão escolha, pois uma mente infantil é como um esponja. Então, minha atitude não será muito diferente da dos meus pais. Mas penso que poderá haver uma diferença quando eles atingirem a adolescência e a juventude. Procurarei deixar o filho livre e incentivá-lo a pensar por si, para procurar sentido em sua própria fé e mesmo abandoná-la se assim decidir. Dawkins diria que isso não é liberdade, uma vez que a mente da pessoa já foi condicionada na infância. Ele pode ter um pouco de razão, mas é evidente que a educação (não só a religiosa) passa por esses processos.
Minha esposa e eu gostamos muito de conversar um com o outro, isso é uma das melhores coisas do nosso relacionamento. Um dia, em meio a uma conversa, perguntei o que ela faria se eu chegasse a ela e dissesse que tornei-me ateu. Ela respondeu: "eu me separaria" (não sei se foi bem assim, mas é assim que me lembro agora). Disse a ela que se me largasse por causa disso, ela não me amava de verdade, pois ala só amava uma idéia fixa de mim que ela guarda na memória. Expliquei que o ser humano é mutável em suas idéias. Ela me disse que, quando começou a namorar comigo, tinha dito que era extremamente essencial que eu professasse a mesma fé que ela. Eu rebati dizendo que ela sempre soube que eu era inquieto na fé, que sempre estava questionando e que ela podia prever, namorando uma pessoa assim, que esses questionamentos poderiam, quem sabe, levar a uma mudança drástica de paradigmas ou ao abandono da fé. Ele terminou dizendo que não poderia conviver com uma pessoa que não acredita em Deus, principalmente por causa da educação dos filhos. Mais uma vez se confirma a dificuldade das pessoas mais próximas aceitarem a descrença de um ex-fiel.
Voltando ao livro do Dawkins. Ele consegue argumentar muito bem contra a religião e, de fato, percebo que a religião fez muito mal ao mundo (mas também fez sua parcela de bondades). Durante a leitura eu tenho questionado a minha fé. Isso não é novidade para mim, pois venho questionano muito a minha fé somente lendo a Bíblia, venho fazendo isso desde que alcancei cheguei aos 18, mais ou menos.
Quando comprei este livro, fiquei um pouco receoso, mas pensei, "já li dezenas de livros evangélicos, talvez mais de cem, se eu me tornar ateu após ler um livro escrito por um ateu, então minha fé é muito frágil mesmo e não faz sentido".
Quando comecei a leitura disse para a Miriam (minha esposa) que eu não poderia ser medroso ao ponto de não poder ler livros que se opõem a minha fé. A fé deve ser sólida, para aguentar essas interpéries e se não for, não é uma fé que valha a pena acreditar. Creio que todo religioso deveria questionar a própria fé, para ver se ainda faz sentido, ou se acredita só porque foi condicionado desde a infância.
Num trecho do livro, Richard Dawkins diz que, se todos fossem críticos sobre sua fé, não haveria tanto homens bomba, pessoas não teriam sido queimadas em fogueiras e nunca teria ocorrido suicídios coletivos.
Durante a leitura do livro tenho tido uma visão mais ampla das religiões, inclusive do cristianismo. Li em algum lugar que, se Jesus viesse hoje ao nosso mundo, ele com certeza não seria Cristão, e talvez questionasse esta religião, como fez com o judaísmo da sua época. Acho que nos chamaria todos de "raça de víboras", principalmente aqueles do Vaticano.
Ao questionar a religião, também questiono a hipocrisia das igrejas. Também da prisão às doutrinas e dogmas e como isso, algumas vezes, acaba impedindo o acesso de algumas pessoas ao próprio Deus.
Bem, apesar disso tudo, não perdi a fé em Deus. Mas posso dizer que sou menos religioso.
Foi o Frei Beto que disse que, quando estudava para ser padre teve uma crise de fé e chegou a pensar em deixar o seminário, pois não acreditava mais em Deus. Depois descobriu que não é que tinha perdido a fé, só não acreditava mais da forma como lhe tinha sido ensinado desde a infância, passou de uma fé sociológica para uma fé personalizada.
É assim que eu me sinto. Se eu for conversar com um crente fundamentalista talvez encontre pouca coisa em comum, e talvez ele diga que minha fé não serve, que estou condenado. Mas a fé para mim é pessoal e não pode ser institucionalizada. As igrejas costumam definir Deus com os limites da religião, o que tende a padronizar a fé, impedindo uma espiritualidade pessoal. Esquecem que definir Deus é limitá-lo. Pessoas que estão presas dentro da caixa da religião, sentem-se em crise quando aquelas doutrinas não fazem mais sentido para elas.
Bem, estou chegando ao fim do livro. Os crentes que se interessarem deveriam lê-lo.
Lembro que, em uma conversa com minha amiga Carol Zezem, eu dizia que estava lendo muito filosofia, principalmente Nietzsche. Ela me alertou para ter cuidado, pois tinha um amigo cristão que começou a ler os filósofos e acabou virando ateu. Lembro que respondi a ela citando um trecho de um livro do Rubem Alves que dizia:
"Eu não posso respeitar deuses que me proíbam o exercício do pensamento. Um deus que não sobrevive ao exercício da inteligência não pode ser deus. É um ídolo de pés de barro. Mas eu amaria e respeitaria um Deus que não temesse o pensamento e que me dissesse, como desafio: Ouse pensar!"
Ele dizia ainda que "coisas sagradas que não podem ser pensadas são ídolos".
Acho que o problema das idéias de Dawkins é que ele (como todos os ateus e muitos crentes), interpreta a Bíblia de forma literal e não leva em cosideração o processo histórico e cultural das populações retratadas lá. Além disso, Deus não pode ser explicado pela ciência, nem organizado em probabilidades como ele pensa. Da mesma forma que não cabe à religião explicar fenômenos naturais. A pessoa que crê em Deus não crê porque acha a sua existência muito provável, acredita porque Deus faz sentido para uma outra dimensão de sua existência, a qual transcende o plano material. A ciência pode (e deve) explicar o "como" o Universo e tudo mais veio a existir, mas é incapaz de explicar o "porquê" estamos aqui. É esse sentido que buscamos em Deus.
P.S: Três dias depois de escrever esse texto, terminei de ler o livro "Deus um delírio". Agora estou em busca de outro livro que faz uma crítica a este, chamado "O delírio de Dawkins - uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins", cujo autor, Alister Macgrath, é um doutor em biofísica molecular, que faz parte da mesma universidade que Dawkins (Oxford), e já foi ateu no passado mas repensou suas convicções. O autor parece fazer críticas interessantes às idéias apresentadas por Dawkins. Se alguém tiver para emprestar, me avisa.





